Comentando sobre a linguagem dos detentos – Nosso Idioma

 

A palavra letramento, segundo a autora Magda Soares, chegou ao contexto brasileiro há pouco tempo, denotando, apesar dos estudos empregados em favor dela, muito cuidado no que tange sua compreensão e aplicação.

Segundo a autora supracitada, letramento vem do ato de ensinar práticas sociais de leitura e escrita, aliado à aquisição de linguagem, ou seja, conscientização, contextualização, uso adequado de quando, como e porque usar certos padrões ou não padrões de determinada língua, ou seja, vemos aqui um pouco, ou mesmo muito, dos ensinamentos de Paulo Freire, que em sua pesquisa e obra nos mostra que aliar os contatos, o social e o cultural à aquisição da linguagem, faz com que o indivíduo aprimore sua prática e uso de determinada língua de forma mais eficiente.

Pensando na questão do letramento como prática social, é possível direcionar o olhar para comunidades de fala específicas, com falares e hábitos inerentes a sua realidade, como os funkeiros, adolescentes, pagodeiros, etc. Tais comunidades vêm sendo comentadas e pesquisadas ao longo dos anos. Mas, além delas, há outras realidades, outros adventos que precisam ser observados.

Você sabia que a lei brasileira prevê a educação de detentos como direito? Pois é, muitos não sabem que é dever do Estado criar escolas dentro de sistemas prisionais para suprir esta demanda da lei e desta comunidade.

No estado de Minas Gerais, em 2006, foram criadas duas escolas dentro do sistema prisional da cidade de Juiz de Fora.Nestas escolas, as comunidades de fala são muito singulares, uma vez que o confronto e o contato social de detentos requer real habilidade linguística e de fala no que tange a regular sua variação linguística em seu meio de contato e convívio: a penitenciária, que é um ambiente de privação social, evidencia-se assim que o indivíduo o qual se encontra nestas condições sociais, precisa ter o aparato de sua língua materna, pré-adquirida, e ser altamente letrado ou estar se letrando no meio ao qual está inserido.

Neste sentido, nos fica clara a manipulação da língua materna e a fusão e desenvolvimento dela com a variedade linguística requerida no local, variedade esta que ora chamamos de variedade linguística inerente aos detentos.

Portanto, é possível perceber que linguagem e letramento andam juntos e que o contato intrínseco deles faz surgir alguns momentos e falares que, muitas das vezes, não são devidamente evidenciados ou estudados, daí o interesse em se aprofundar, sociolinguisticamente falando na questão da variedade não padrão de detentos.

A fala, no caso de detentos, denota a condição social de exclusão e a vontade expressa na fala de um grupo de indivíduos específicos, privados de liberdade e direitos, expressando sua rebeldia na fala e na variedade em mudança constante.

Isso confirma o fator exclusão, já que o poder que lhes é dado e permitido dentro do sistema prisional é o poder de sua fala e comunicação, mesmo que alheia aos demais participantes do processo, o que a caracteriza como variedade linguística em seu uso.

(O texto acima é uma adaptação do projeto elaborado pela autora e apresentado ao curso de pós-graduação da Universidade Federal de São João Del Rei, como um dos pré-requisitos para a obtenção do título de especialista em Práticas de Letramento e Alfabetização.)

 

*Fernanda Sevarolli Creston Faria é graduada em Letras (UFJF), especialista em Práticas de Letramento e Alfabetização (UFSJ), especialista em Planejamento, Implementação e Gestão da EAD (UFF) e mestranda em Gestão e Avaliação da Educação Pública (CAED/UFJF). Professora do sistema de ensino do estado de Minas Gerais e do sistema privado de ensino, além de tutora EAD (Pedagogia/UAB/UFJF).

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