A polidez brasileira e o choque intercultural: O cuidado com nossas crianças (Parte II) – Nosso Idioma

Na experiência multicultural, aprende-se a prestar atenção nas formas de polidez sempre tão diferentes nas culturas. Entender como os indivíduos se reconhecem e se cumprimentam, em seus mais básicos gestos de mesuras e de atitudes ao dialogar com o outro, além de ver de perto o efeito dessas diferenças na sociedade, podem ser o caminho mais certeiro para aderir às novas formas de cooperação que virão pela frente.

Por que novas formas de cooperação? É simples. Cada cultura tem seus modos (explícitos e implícitos) de se colocar disponível para a conversa, de fazer parte, de emocionar e de se entregar a emoções também.  É o que Tomasello, o psicológo do Max Planck Institute, demonstrou  em seu livro Por que cooperamos? É preciso saber que não é porque somos brasileiros que precisamos de mais alegria do que outros povos, mas é bom ter consciência de que demonstramos mais facilmente essa empatia. E o que dizer do sorriso dos brasileiros? O sorriso pode significar muitas coisas, desde felicidade até demência a depender do contexto cultural.

Por isso, é sempre mais prudente dar ao outro o que ele nos pede (ou o que ele nos oferece): as formas locais de polidez. A abertura ao abraço, aos beijinhos e ao sorriso indiscriminado serão conquistados depois. Cooperar pode se traduzir em expressões positivas demonstradas pela expressão facial, postura corporal e, dentre outras formas, pela escolha de construções e palavras da língua majoritária.

Não é possível decidir unilateralmente ser, sem ressalvas, brasileiro, sem que a possibilidade de um outro diferente não entre nessa fórmula de interação. Cooperamos para sobreviver. Toda a espécie humana faz isso. A diferença está na forma como demonstramos essa cooperação. Um sorriso. Um aceno. Um olhar. Adesão aos hábitos de um novo espaço. Até mesmo as formas de silêncio revelam uma manifestação cultural. Em suma, é buscando um espaço conjunto de interação (ainda que sem palavras) que nos revelamos empáticos e cordiais.

Ser ou não ser, eis a questão. Para ser, é preciso conhecer a quem se destina a ação ou gesto, pois o outro igualmente integra essa equação. Toda interação deveria ser uma equação: pontos de partida diferentes mobilizados para uma interação comum.  Observar com atenção é o melhor caminho para se aprender a lidar com o outro em suas diferenças, portanto. As regras sociais nem sempre estão claras, por isso, aprendê-las pressupõe atenção, percepção e interesse.

Cumprimentar ao chegar e ser gentil em situações conjuntas podem revelar a fineza da educação. E o comportamento social refinado é a leitura comum e desejável em toda a sociedade urbanizada. Assim, ao falar, as gentilezas, mesuras, ritmo e tom são índices que levarão pistas do grau de inserção social.  Vestir-se adequadamente ao espaço para o qual se está deslocando revela o savoir-faire, o saber portar-se em sintonia com regras sociais. Também assim é a escolha da língua e das palavras.

Logo, pode-se dizer que a inserção social equivale ao atendimento, aos hábitos e costumes socioculturais locais, mas isso não significa abandonar a herança cultural familiar. Há espaço para ambos. Para ser fluente na polidez será preciso demonstrar esse equilíbrio no enquadramento identitário, e isso depende sempre da abertura para o outro (leitura das regras de polidez), sem o que não haverá sequer convivência saudável para o indivíduo.

 

*Professora da Universidade de São Paulo (Brasil), pesquisadora CNPq, livre-docente em Gramática Histórica e pós-doutorada em Contato linguística, pela Universidade de Macau (China). Mais recentemente, tem se dedicado às questões das línguas de herança, em especial o português como língua de herança em Macau, na China.

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