A polidez brasileira e o choque intercultural: O cuidado com nossas crianças (Parte I) – Nosso Idioma

Tratar de polidez implica pensar na relação entre pessoas em espaços e situações diversas. As metrópoles, por exemplo,  ao mesmo tempo em que acolhem pessoas oriundas de várias partes do mundo em busca de melhores  oportunidades profissionais,  muitas vezes torna-se um espaço de hostilidades pelo choque cultural.

A configuração da cidade favorece que o isolamento e a despersonalização dos indivíduos manifestem-se em situações até mesmo banais, como compartilhar metros quadrados cada vez menores em trens e ruas lotadas. A pressa nunca produzirá o mínimo clima e espaço para a construção de amizades. É preciso sorte para que uma forte amizade surja nesse ambiente.

Salvo engano, a maior hostilidade que um imigrante pode enfrentar é a resposta à não adaptação de seu modus vivendi à cultura local. As mesuras e as gentilezas são o meio pelo qual esses choques são atenuados e fazem abrir caminhos de interação entre culturas diferentes.  Então, a velocidade avassaladora com que um imigrante tem que lidar com membros da nova sociedade em busca de cumprir metas profissionais pode ser benéfica para alcançar o sustento e o sucesso na carreira, mas infelizmente tem se revelado inversamente proporcional ao sucesso no entrosamento social.

Situando nesse espaço famílias multiétnicas com filhos bilíngues, parece que tudo pode se complicar, em especial no ambiente não adulto. Ao mesmo tempo em que os filhos podem ser os elos que coloquem mães em diálogo e aproximem famílias diferentes, se as atitudes forem inadequadas ao que é polido na nova cultura, a vantagem  de vir a ser bilíngue passa a correr, paradoxalmente, contra o próprio imigrante.

Nada pior que uma criança se sentir invisível e sem laços num espaço hostil. Muitas vezes, experimenta a sensação de abandono e de desprezo, ao contrário da liberdade de ir e vir experimentada nessa mesma situação por alguns adultos. Uma criança ou um adolescente invisíveis, nas fases iniciais de contato com uma nova cultura, podem facilmente se tornar vítimas de transtornos depressivos.

Eis a importância de se investir em espaços de convivência multiculturais. Os pais precisam não somente incentivar a aprendizagem da nova cultura, mas precisam oferecer a flexibilidade de se aceitar nessa condição e isso só se alcança com muita interação multicultural.  A diferença traz um saldo positivo, e é preciso desfrutar desses componentes de forma consciente.

Na experiência multicultural, aprende-se a prestar atenção nas formas de polidez sempre tão diferentes nas culturas. Entender como os indivíduos se reconhecem e se cumprimentam, em seus mais básicos gestos de mesuras e de atitudes ao dialogar com o outro, além de ver de perto o efeito dessas diferenças na sociedade, podem ser o caminho mais certeiro para aderir às novas formas de cooperação que virão pela frente.

Na experiência multicultural, aprende-se a prestar atenção nas formas de polidez sempre tão diferentes nas culturas. Entender como os indivíduos se reconhecem e se cumprimentam, em seus mais básicos gestos de mesuras e de atitudes ao dialogar com o outro, além de ver de perto o efeito dessas diferenças na sociedade, podem ser o caminho mais certeiro para aderir às novas formas de cooperação que virão pela frente.

 

*Professora da Universidade de São Paulo (Brasil), pesquisadora CNPq, livre-docente em Gramática Histórica e pós-doutorada em Contato linguística, pela Universidade de Macau (China). Mais recentemente, tem se dedicado às questões das línguas de herança, em especial o português como língua de herança em Macau, na China.

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