Brasil: Um país de várias línguas (Parte 3) – Nosso Idioma

Um outro aspecto da língua que nos provoca curiosidade é o estrageirismo encontrado em muitas das expressões utilizadas no Norte e Nordeste de nosso país.

A influência francesa nos deu de presente palavras como “visage” (rosto ou face), que no Norte do país ganha um outro sentido, sendo esta a palavra para definir fantasma ou assombração. No Nordeste, especificamente na Bahia – não nas grandes cidades, mas nos vilarejos e cercanias – ainda se ouve a palavra “trotoir”, para definir prostituição, e “antourage”, que se refere aos “papagaios de pirata” de políticos.

Com muito senso de humor, estas palavras se incorporaram no vocabulário local de nossos interiores, e são falados com a simplicidade e a leveza que faz de nossa língua uma forma de expressão sadia.

Lembro-me que certa vez em uma de minhas muitas viagens para a Amazônia, estávamos a navegar por um rio chamado CARAPARU. Curioso com o nome do rio, perguntei ao caboclo que remava, se ele sabia da origem daquele nome, ao que ele responde com uma anedota que fluiu de sua boca de forma tão natural, que sequer percebera o quanto era engraçado. Disse ele que, certa vez, um caboclo estava fugindo com uma mulher casada, e que estava sendo perseguido por um homem muito grande, com uma espingarda, presumindo-se ser este o marido enganado. Naquela região, onde mesclam-se palavras do Tupi-Guarani com dezenas de outras tantas línguas estrangeiras, a palavra “sumano” – provavelmente uma variação do espanhol “su hermano” – significa amigo, irmão ou mesmo senhor. Seguindo a estória do caboclo remador, o tal do homem perseguia enfurecidamente o jovem que roubava sua esposa em uma canoa, quando de repente percebeu, como que encantado, que o homem parou de persegui-lo, ao que a mulher grita OLHA SUMANO, O CARA PARU! Não se pode dizer que lhe faltava a criatividade, por suposto.

O Oriente também trouxe sua contribuição, enriquecendo nossa cultura com expressões e ditos populares que passam quase que imperceptíveis diante de nossos olhos. Entre as décadas de 40-50, o Brasil foi cenário constante de mudanças de libaneses que, inspirados pela criação das primeiras indústrias no país, chegavam ao Brasil transformando-o em sua segunda pátria. Ainda hoje, ao visitar o Líbano, encontramos muitos cidadãos que falam português, e ainda nome de ruas como São Paulo ou Piauí.

Era muito comum, durante esse período, andar pelas ruas do Rio de Janeiro ouvindo os libaneses conversando em árabe, e experimentando introduzir o idioma no linguajar de negócios da comunidade. A expressão “Mafi Massari” – traduzida por não tenho dinheiro – popularizou-se pelas ruas do Saara, região comercial do Rio de Janeiro, como algo natural, bem como a expressão “Se Deus quiser!”, falado repetitivamente pelos árabes no país, como tradução de ‘I-Xalah”.

As cantigas de roda também, muitas delas herdadas dos espanhóis e portugueses, são marcas das influências culturais que permanecem impressas em nossa memória coletiva. Quem nunca brincou de “escravos de Jó”? Ou quem nunca ouviu a cantiga de roda “Senhora Dona Sancha, coberta de ouro e prata, descubra seu rosto que nós queremos ver”?

Com toda essa riqueza, nossa língua vai expandindo seus horizontes, e passa a estar em constante movimento. A língua não estagna no tempo e no espaço, e sua evolução reflete a forma com que nos relacionamos com nossa cultura, bem como reagimos às mudanças sociais. A abundância de significados e o papel primordial do significante que se reveste em forma de metáfora social dão a nossa língua portuguesa lugar de destaque no cenário cultural mundial.

Hoje, o português se apresenta em sua plenitude como uma das mais belas línguas do mundo. Devolve ao pensamento a mais bela forma de troca cultural, que traz na arte e literatura todo o legado de uma língua múltipla, repleta de sofisticação e diversidade.

*João Brandão Junior. Carioca de Botafogo, PHD em Antropologia Social pela Universitat de Barcelona, Mestre em Antropologia Social pela USP – Universidade de São Paulo. Possui três graduações: História (UPS), Direito (PUC-SP) e Relações Internacioanis (PUC-RJ).

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