Brasil: um país de várias línguas (Parte 2) – Nosso Idioma

Continuando a jornada através do sul de nosso país, com foco nas diversas colonizações que marcaram nossa língua com seus traços únicos, nos deparamos com algumas curiosidades que nos deixam no mínimo perplexos, dada a sua diversidade. Subindo a serra de Santa Catarina, encontramos duas cidades cujos traços de colonização se fazem presente até hoje, com a marca registrada de suas línguas de origem. Trata-se das cidades de Nova Trento e Pomerode.

Nova Trento, como o próprio nome já sugere, tem na cultura italiana o traço maior de sua identidade local. O italiano é ensinado nas escolas públicas, e não raramente testemunhamos o encontro de pessoas pelas ruas da cidade, conversando em um dialeto que vem se misturando a nossa tradição gramatical brasileira. Não por ironia, o catolicismo fervoroso da cidade deu ao Brasil a sua primeira santa, Santa Paulina – antes conhecida como Madre Paulina, natural de Vigolo Vataro na Itália – reconhecida pelo Vaticano em 19 de maio de 2002.
Interessante observar que, na intimidade de suas famílias, Nova Trento continua italiana, com o devido zelo pela tradição trentina. Cantigas de rodas, chavões recitados pelos herdeiros do italiano como Lingua Mater, uma cozinha típica que resiste ao tempo, vão registrando na vida cotidiana da cidade, uma série de elementos que se confundem com a própria história da colonização.

Na cidade, práticas religiosas e políticas se confundem, construindo uma cultura religiosa fortemente embasada pelo catolicismo romano, e traços da religião estão abertamente relacionadas com as ações de cidadania. Diante de tanta italianidade, não é difícil entender um dos ditados populares mais comuns na cidade: “Em Nova Trento, quando uma criança nassce, faz-se a polenta e joga-se na parede. Se grudar vai ser pedreiro, se não, vai ser padre.”

Na linguagem catarinense de Nova Trento, a musicalidade das palavras, quase sempre entonadas de forma interrogatória, revela um povo de forte personalidade e grande senso de humor, que encontra no exercício da religião a sua conexão com a terra.

Ali, bem pertinho, entre as verdes montanhas do sul brasileiro, encontramos também uma das cidades mais alemãs de Santa Catarina. Seu nome? Pomerode! Pomerode passou a ser a expressão mais fidedigna da colonização alemã, sendo seguida das cidades de Blumenau e Brusque.

A particularidade dessa cidade vai desde a sua arquitetura à pratica constante de um dialeto alemão por todos os lugares da cidade. Muito comum ver a juventude de Pomerode vestida em dias de festas, com seu tradicional paramento alemão, e entre os amantes, a palavra CHATZ, dá lugar a expressão “meu amor”, “meu querido”, e todos os demais salamaleques apaixonados que costumamos reverenciar aqueles a quem amamos.

Embora as duas cidades apresentem uma dinâmica diferenciada em manter a língua como um elo de conexão com suas colônias originais, ainda assim sofrem mudanças profundas em sua linguagem informal, apontando para um eterno evoluir da linguagem coletiva. Estudos realizados pela Universidade Federal de Santa Catarina revelam que as gírias utilizadas pelos jovens de ambas cidades passaram a ser o ponto de unidade na comunicação dos municípios. Segue abaixo uma lista com alguns exemplos de expressões idiomáticas comuns nas duas cidades.

Alió alió!!! – veja o comportamento do indivíduo;
Ash dereita – virar à direita (geralmente usada como complemento de “toda vida reto”);
Baga – anticoncepcional; bolinha; semente;
Bucica – cadela; “fema” do cachorro;
Calcanhar rachado – morador de Brusque;
Dar um guento – pressionar uma pessoa;
Dou-ti cosh quatro pé no peito – vou te quebrar todo;
Etchooo!! – Interjeição usada quando uma pessoa quebra algo por descuido;
Galega – loira;
Manezinho da ilha – morador de Florianópolis;
Orelha de gato – iguaria da cozinha italiana – grôstoli; calça virada;
Papa-batata – blumenauense;
Papa-siri – itajaiense;
Pila – dinheiro;
Poita – mulher obesa, balofa.

(Continua na próxima coluna…)

*João Brandão Junior. Carioca de Botafogo, PHD em Antropologia Social pela Universitat de Barcelona, Mestre em Antropologia Social pela USP – Universidade de São Paulo. Possui três graduações: História (UPS), Direito (PUC-SP) e Relações Internacionais (PUC-RJ).

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