As dificuldades enfrentadas por uma criança brasileira nos Estados Unidos – Nosso Idioma

A oportunidade de morar por alguns anos num país de língua inglesa não é privilégio de muitas crianças brasileiras. Mas, algumas têm esta possibilidade e vêm passar alguns anos nos Estados Unidos com sua família.

Nos primeiros meses, a maior dificuldade desta criança é se relacionar com os colegas da escola, tanto por causa da língua de comunicação quanto por causa das diferenças culturais. Porém, depois de apenas dois ou três meses, a barreira da comunicação não é mais um grande obstáculo, especialmente porque as crianças têm enorme potencial de aprendizado de outros idiomas.

Entretanto, tão rapidamente quanto esta criança começa a aprender a língua inglesa, ela começa a esquecer da portuguesa. Depois de somente dois ou três meses de contato com a língua estrangeira, a escrita de algumas palavras da língua nativa se torna uma tarefa com certo grau de dificuldade. Com frequência, vocábulos que são grafados com as letras “s, ss, ç, r, rr, x, ch, z” deixam a criança diante de um grande desafio. E, constantemente, surgem inesperadas perguntas sobre a escrita de palavras que fazem parte do seu vocabulário desde os primeiros anos de alfabetização.

Neste momento, os pais notam que não é unicamente o hábito da leitura que vai fazer com que seu filho continue familiarizado com a língua portuguesa. Logo concluem que é fundamental praticar a língua através da leitura e da escrita, através de atividades variadas, seja para manter o aprendizado adquirido ao longo dos anos de alfabetização, seja para adquirir novos conhecimentos sobre todos os aspectos da língua materna.

Em face ao obstáculo, os pais recorrem ao professor particular para proporcionar ao seu filho a continuação do processo de aquisição da língua nativa e também o regresso à escola no Brasil sem maiores prejuízos. Eles desejam ver seu filho fazendo parte da mesma turma escolar no antigo colégio, com capacidade de acompanhar as aulas normalmente, como se não tivesse deixado de frequentar as classes diárias.

Nas primeiras aulas é muito comum a criança perguntar com frequência sobre a grafia de palavras do cotidiano, que deixaram de ser escritas nos últimos meses e que fazem surgir algumas dúvidas. Tal dificuldade acontece especialmente porque o processo de aquisição da língua, que estava em desenvolvimento, foi interrompido repentinamente.

Contudo, depois de alguns meses de aulas semanais – o tempo é variável para cada criança – a frequência das perguntas sobre a grafia de palavras diminui progressivamente e a criança volta, gradualmente, a desenvolver o processo de aprendizado da língua materna. E, assim, os planos para reencontrar os antigos colegas e amigos da escola passam a fazer parte do seu cotidiano.

*Claudia Beatriz Doner é graduada em Letras (Português-Literatura) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com especialização em Leitura e Produção de Textos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É professora de português há 15 anos e leciona português para estrangeiros no The Global Institute of Languages and Culture, Inc.

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