Entre outros: Fernando Pessoa – Nosso Idioma

É fascinante como Fernando Pessoa e seus heterônimos expressaram em palavras uma questão essencial e atual: a multiplicidade. Essa condição mostra-se num mundo em que a diluição de possibilidades trazem a sensação de que não há mais apenas um caminho e uma certeza, mas milhares. Essa ampliação do olhar e das perspectivas é o cerne da obra de Fernando Pessoa e de seus heterônimos.
Pessoa não foi somente um poeta, foi um criador de poetas. Não inventou pseudônimos: criou personalidades dotadas de vida, pensamentos e estilos diferentes de si próprio, por isso chamadas de heterônimos.

Vamos ler um trecho da carta de Fernando Pessoa a seu amigo Adolfo Casais Monteiro, em que comenta a heteronímia:

“Eu vejo diante de mim, no espaço incolor, mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro o dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e teve profissão e educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890”. (Fernando Pessoa)

O poeta tentou formular um todo através da experiência de vários “eus”. Os três heterônimos mais conhecidos são Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Mas não só, há outros, todos fonte para estudos e desassossegos.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(heterônimo Álvaro de Campos em trecho do poema “Tabacaria”)

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