Por que americanos que já sabem espanhol não aprendem português rapidamente? – Nosso Idioma

Sabemos que o aprendizado da língua portuguesa por hispanofalantes é inicialmente mais rápido, mas algumas pessoas ficam sem entender por que diferenças sutis entre as duas línguas, como, por exemplo, as “simples” conjugações dos verbos “ser” e “estar”, não são claramente compreendidas pelos alunos em poucas sessões de aula. Acontece que por mais que o aprendiz possa acionar seus conhecimentos de espanhol, na verdade, aciona primeiro seu léxico na língua materna (inglês) e completa as lacunas com o  conhecimento na sua segunda língua (espanhol). Mesmo que a língua materna (L1) do aprendiz seja o espanhol, se ele tiver feito toda a sua formação acadêmica, ou boa parte dela, nos Estados Unidos, em língua inglesa, será nesse idioma que as primeiras relações de aprendizado serão feitas.

A dificuldade de distinção entre os verbos “ser” e “estar” pode ser ilustrada em uma situação comum em sala de aula; por exemplo, o professor mostra ao aluno uma imagem famosa, como a do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e pergunta-lhe “onde é este lugar?”. Em seguida, em um contexto semelhante, o professor mostra outra imagem conhecida, e o aluno pergunta ao professor “onde está este lugar?”. Em inglês, já sabemos que não há distinção marcada no verbo “to be”, entretanto, essa marca existe em português e em espanhol. Percebemos, então, que essas sutis trocas envolvem os conceitos da L1 do aluno.

São necessárias muito mais sessões acerca de coisas básicas para que a fossilização seja evitada e não nos deparemos com o portunhol – mistura de português com espanhol como uma interlíngua – nas produções orais e escritas dos alunos. Larry Selinker (1972: 215) descreve fossilização como itens linguísticos e subsistemas que falantes de uma língua nativa particular tenderão a manter na sua interlíngua relativa a uma língua-alvo particular, não importa qual a idade do aprendiz ou quantidade de explicação ou instrução que ele recebeu na língua-alvo. Um exemplo é a construção de sentenças como:  “agora eu vou procurar livros, os otros días eu hago minha tarea”. Nesse exemplo em que o português é a língua-alvo, o espanhol está contribuindo para a formação da uma interlíngua, o portunhol. Entretanto, como sabemos, o portunhol não é a língua oficial de nenhuma comunidade, assim, é preciso que o professor trabalhe constantemente com o aluno essas interferências.

Como o espanhol é a língua estrangeira mais usada no território americano, é importante pensar a contribuição dessa língua para o ensino de Português como Língua Estrangeira levando em consideração: a) a necessidade de tratar como simples assuntos que têm uma complexidade maior na correlação língua-alvo/língua materna; b) a criação de momentos de uso real na língua-alvo; c) o portunhol, embora possa ser inevitável no primeiro contato entre os idiomas, deve ser trabalhado a fim de evitar a fossilização das ocorrências.

Referência: Selinker, L. (1972). Interlanguage. IRAL – International Review of Applied Linguistics in Language Teaching, 10, (3).

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