As várias línguas portuguesas – Nosso Idioma

Para que se efetue a comunicação é necessário haver um código comum. O português é a língua que utilizamos, no entanto, trata-se de uma língua portuguesa ou de várias línguas portuguesas?

Pensemos nas diferentes situações que vivemos: conversar com os amigos, escrever um email, escrever uma carta ao consulado, falar com um professor ou o pastor da igreja, etc. Em cada uma dessas circunstâncias nós nos adaptamos seguindo o parâmetro de ser mais formal, informal, utilizar uma linguagem familiar ou mais cuidada. Consequentemente, utilizamos diferentes registros da língua portuguesa cotidianamente, às vezes, tão diversos um do outro que podem nos dar a impressão de que falamos várias línguas portuguesas.

Como professora, preocupo-me para que meus alunos conheçam e desenvolvam as habilidades de falar, ler e escrever utilizando um registro cuidado e formal, comumente chamado de língua “padrão”. Esse registro, ensinado nas escolas e utilizado nas situações oficiais, tornou-se, historicamente, a medida de avaliação das práticas linguísticas.

Quando os pais dizem, eu quero que meu filho aprenda a “falar certo”, eu sempre pergunto: O que isto quer dizer? Geralmente, eles estão preocupados com a aquisição do registro “língua padrão”. Ter acesso a esse registro é muito importante e possibilita expressar-se nas situações formais como falar em público, escrever uma carta para procurar um emprego, etc.

No entanto, acredito que o trabalho com a língua envolva também a discussão sobre: onde e quando a forma padrão deva ser utilizada, a utilização de registros apropriados às circunstâncias linguísticas diversas e, principalmente, quando e por quê o registro que o aluno e a família utilizam são discriminados como um “falar errado”.

Muitos sociólogos e linguistas já discutiram que a língua não é neutra e existe um uso político dela para desvalorizar a expressão das pessoas que não dominam o registro padrão. Esse preconceito é chamado de intolerância linguística e pode nos privar de aprender com as pessoas que utilizam registros diferentes do que nós utilizamos.

Como professora, eu tomo muito cuidado em não desvalorizar a identidade linguística de meus alunos e construir conhecimento a partir dela. Acredito que tão importante quanto aprender o registro padrão é aprender se adequar às diversas circunstâncias linguísticas. Seria adequado utilizar uma língua formal e cuidada com meus amigos durante um jantar em casa (Nós vamos agora servir o jantar, por favor, todos acomodem-se em suas cadeiras)? Afinal, nem os gramáticos utilizam a forma padrão o tempo todo!

A língua é rica em sua variedade e aprender não deve ser aprisionar, mas construir, como observa o professor Marcos Bagno:

“Ensinar bem é ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele já sabe do mundo, da vida, reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano. Somente assim, no início de cada ano letivo, este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas, em vez de lamentar a volta às jaulas.” (Marcos Bagno, Preconceito linguístico)

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