O ensino da língua portuguesa no mundo – Nosso Idioma

A AOTP está organizando o EMEP (Encontro Mundial do Ensino de Português) que ocorrerá, nos dias 4 e 5 de maio, em Fort Lauderdale, como parte do seminário Focus-Brazil – North America 2012. Como secretária da AOTP, tive a oportunidade de entrevistar a professora Edleise Mendes, uma das palestrantes no encontro. Ela é professora da Universidade Federal da Bahia, coordenadora do Grupo de Pesquisa LINCE – Núcleo de Estudos em Língua, Cultura e Ensino (UFBA/CNPQ), organizadora do Projeto POLH (Formação Continuada de Professores de Português Língua de Herança), junto à Divisão de Promoção da Língua Portuguesa (DPLP/MRE) e é a atual presidente da Sociedade Internacional de Português Língua Estrangeira – SIPLE (2011-2013). Na entrevista dada à AOTP, Edleise apresenta sua visão sobre o ensino de língua portuguesa no mundo atualmente. Vamos conferir?

 

Ivian: Como você vê o ensino de PLE e PLH no mundo hoje? Que mudanças você tem notado?

Costumo dizer, ultimamente, para os meus alunos da graduação e da pós-graduação que esta é a hora do português, este é o momento de aproveitarmos a onda e darmos impulso a muitas ações voltadas para o ensino, o planejamento, a elaboração de materiais e a formação de professores de português que não angariavam incentivos ou apoios. Os projetos e as diferentes ações para o desenvolvimento e a promoção do português, desse modo, têm surgido devido à demanda de desenvolvimento de cursos de língua e de formação de novos professores, em variados contextos no mundo, forçando-nos a estabelecer estratégias e planejamentos diferenciados, que possam atender às complexas e diversificadas situações de ensino e de formação. Um dos pontos positivos desse processo acelerado de desenvolvimento do português, seja em contexto de PLE/PL2 ou PLH, é que o crescente interesse e a forte demanda por um ensino de qualidade, com materiais de qualidade e a partir de abordagens contemporâneas para o ensino/aprendizagem de línguas têm forçado pesquisadores, professores e profissionais que atuam na área a buscarem novos caminhos para a sua formação e atualização. Entre outros aspectos, eles têm sido obrigados a rever os velhos esquemas de curso e os métodos enrijecidos para refletirem sobre questões importantes e relevantes para o professor contemporâneo, como, por exemplo, sobre visões de língua e de linguagem menos sistêmicas e mais sensíveis culturalmente, sobre os materiais como fontes de aprendizagem e não como fim, e, ainda, sobre as práticas de sala de aula como experiências situadas de uso da língua e não apenas como laboratórios para a apreensão da gramática. Adicionalmente, essa necessidade de ampliação da oferta do português e da formação de novos professores tem exigido das instituições governamentais, como também das privadas, a alocação de recursos para o desenvolvimento de projetos de cursos e também de materiais, além da formação de novos professores. Nos próximos dois anos, muitos resultados dessa efervescência serão evidentes, como uma grande quantidade de novos materiais no mercado, o grande contingente de professores formados e em contínuo processo de formação, a criação de cursos e de recursos em ambiente virtual, para o acesso de toda a comunidade PLE/PL2/PLH. Estamos, de fato, vivendo novos tempos para o português, e que seja duradouro!

Ivian: Que conceitos de língua e linguagem os professores de PLH e de PLE devem refletir e incorporar em suas práticas de ensino?

Há muitos fatores que concorrem para configurar o ensino de línguas que se pratica ainda hoje, e um dos mais fortes diz respeito às concepções de língua e de ensinar e aprender que estão na base do fazer do professor. Concepções que, de modo geral, consideram a língua apenas um instrumento de comunicação, ou conjunto de formas e suas regras de organização, costumam imprimir nas práticas de sala de aula a excessiva formalização dos fatos da língua, com ênfase nos conceitos, nas regras e nos exercícios automatizados. Esse modo de ação se baseia na crença de que o conhecimento da estrutura de uma língua é condição suficiente para garantir o bom desempenho do aprendiz. Adicionalmente, concepções de ensinar e aprender como processos de transferência de conhecimentos, nos quais os sujeitos, tanto professores quanto alunos, são passivos e apenas “transmitem” e “recebem” conteúdos, ajudam a produzir mais equívocos. Esses modos de pensar em nada contribuem para o desenvolvimento da competência linguístico-comunicativa do aluno, para a construção de um lugar na língua que se está aprendendo – que é o que desejamos. Nesse sentido, ver a língua como cultura, como lugar privilegiado no qual sujeitos interagem quando vivem em sociedade, tem se mostrado ser uma necessidade de reflexão.
Como tenho afirmado em muitos textos, pensar a língua desse modo, como uma língua-cultura, é a reconhecermos como um fenômeno social e simbólico de construção da realidade que nos cerca, o modo de construirmos os nossos pensamentos e estruturarmos as nossas ações e experiências e as partilharmos com os outros. Ela também representa um sistema complexo, que envolve diferentes níveis de estruturas formais, como os aspectos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos, as unidades de sons e suas representações gráficas, assim como um sistema de normas e regras de organização e combinação dessas estruturas. Mas não apenas isso. Envolve, também, um conjunto de códigos sociais e culturais que inclui tudo o que nós fazemos com o nosso corpo, com a nossa voz e com nossos movimentos quando interagimos, quando vivemos em português. Uma língua-cultura pode ser compreendida, portanto, como um conjunto potencial de estruturas, forças e símbolos que assume posições, formas e cores diferentes, a depender dos matizes impressos pelo mundo à sua volta e de sua interpretação por aqueles que interagem através dela. Para o professor de PLE/PLH, é fundamental refletir sobre as concepções de língua/linguagem que orientam a sua prática, pois elas irão determinar as experiências que são desenvolvidas em sala de aula, se menos ou mais sensíveis aos sujeitos ali em interação. Olhar a língua como cultura, como lugar de interação e como ação de linguagem situada deve conduzir a organização das experiências de ensinar e aprender com foco no sentido, no uso comunicativo e interativo da língua, em detrimento da prática excessiva e descontextualizada de estruturas formais. Quaisquer que sejam os conteúdos tomados como ambientes para o desenvolvimento da aprendizagem, para práticas de leitura, escrita e oralidade, o importante é o modo como esses conteúdos funcionam como pontes e passaportes de acesso a novas experiências e significados construídos em conjunto, na nova língua em que o aprendiz quer encontrar o seu espaço de viver.

Ivian: Edleise, você coordena o curso oferecido pelo governo brasileiro, por meio da DPLP, para a formação de professores de Língua Portuguesa de Herança. Nós, da AOTP, estamos organizando o EMEP (Encontro Mundial do Ensino de Português) do qual você participará como palestrante. Qual deve ser o enfoque das iniciativas de discussão sobre o ensino de PLE e PLH?

Este importante evento, assim como outros que têm acontecido em todo o mundo, apenas reforçam o que podemos ver de modo indubitável: a importância e a relevância do português, econômica e cultural, no mundo contemporâneo. Por isso mesmo, é de extrema relevância que possamos utilizar este fórum para discutir ações estratégicas para o desenvolvimento e a promoção da língua, para o que a formação de novos professores e a formação continuada dos que já atuam na área é fator central. Cada professor formado e em atuação, nos diferentes contextos de ensino que despontam, é um agente difusor e promotor de nossa língua-cultura, capaz de impulsionar o importante reconhecimento do português como língua internacional, ao lado do inglês e do espanhol, por exemplo.
Além da formação de professores, é necessário que pensemos na integração das diferentes línguas que vivem em português, ou seja, nas diferentes línguas-culturas lusófonas espalhadas pelo mundo. De modo geral, seus agentes, sobretudo os que podem desencadear políticas linguísticas mais amplas, não trabalham de modo conjunto para que dentro de nossa própria comunidade busquemos o diálogo intercultural, para que possamos almejar ter força e representatividade como língua de projeção mundial.

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