Aprender uma língua vai além de memorizar vocabulário e saber as regras gramaticais, pois o uso das palavras e estruturas está diretamente relacionado ao modo como as pessoas falantes de um certo idioma pensam, se relacionam e se comportam. Para alguns estudiosos, há uma associação direta entre cultura e língua, para outros, essa relação é ainda mais forte, não há como promover uma separação entre ambos.

Pensemos na Língua Portuguesa falada no Brasil. Para nós, falantes nativos, é comum ouvirmos expressões como “pendurar as chuteiras”, “dar bola fora”, “ficar de escanteio” e “passar a bola”, mas não pensamos o que aprendizes de português podem entender ao ouvirem isso. Seria “pendurar as chuteiras” apenas o ato de realmente pendurar os sapatos usados para jogar futebol em algum lugar? “Passar a bola” é somente colocar nas mãos da outra pessoa o objeto? Bem, a maioria dos brasileiros nunca pensaria no sentido literal dessas expressões e rapidamente entenderiam que alguém vai parar de trabalhar, aposentar-se (“Ele vai pendurar as chuteiras”) e que outra pessoa ficará responsável pelo trabalho (“Ele vai passar a bola para seu colega”).

Dessa maneira, entender a cultura do outro é parte do aprendizado da língua. É preciso tentar entender o ponto de vista do outro para assim melhor compreender o uso da língua nas interações. Contudo, há pouca, quando nenhuma, informação sobre essas expressões nos livros didáticos utilizados para o ensino da Língua Portuguesa. Na maioria dos livros, a cultura é explicada por meio de textos como curiosidades, e enfatiza-se as festas, comemorações e tradições, e geralmente não há explicações acerca de expressões utilizadas nesses contextos.

Chegamos então a algumas indagações: É possível aprender a cultura para assim saber como utilizar palavras e expressões em outra língua? Como trabalhar (ou ensinar?) cultura em sala de aula?

Primeiramente, o objetivo do professor não deve ser ensinar cultura, apresentando curiosidades ou diferenças dos falantes da língua-alvo, mas buscar conscientizar os aprendizes de que as pessoas utilizam diferentes ferramentas e meios para se expressar e que muitas dessas estratégias são provenientes da cultura de cada indivíduo. O professor pode criar oportunidades para que os aprendizes reflitam e se sensibilizem acerca das características, costumes, concepções e interpretações do outro para que assim melhor os interpretem e também melhor compreendam o uso da língua.

Considerando, como apontado, que os livros didáticos, em sua maioria, não propiciam tais oportunidades, materiais autênticos parecem ser uma das melhores fontes para instigar tais reflexões. Em outras palavras, produções reais como jornais e programas de televisão podem ser uma fonte rica de exemplos para falantes de outras línguas que almejam aprender português.

Propagandas como dos produtos “Havaianas” e “Cerveja Skol” mostram pessoas em situações do dia-a-dia, interagindo e utilizando expressões comumente conhecidas, as quais, com esclarecimentos do professor, podem ser utilizadas em sala de aula como exemplos verossímeis da língua em uso.

“A grande família” e “Divã” são programas baseados na vida de pessoas comuns, famílias típicas e relações verdadeiras entre os brasileiros, o que proporciona aos aprendizes uma oportunidade de observar não só os costumes e tradições, mas também estruturas linguísticas utilizadas nesses contextos. Assim como algumas músicas, dentre as quais é possível citar “Família” (Titãs), “Cotidiano” (Chico Buarque), “País Tropical” (Jorge Ben Jor) e “Partida de Futebol” (Skank), em que há várias expressões que apenas podem ser compreendidas considerando o contexto e a cultura.

Além disso, quem está aprendendo a língua sempre pode utilizar websites para assistir vídeos, ouvir músicas e assim pesquisar acerca desses aspectos que facilitarão a compreensão de mal entendidos e poderá deixar os aprendizes mais atentos em relação ao uso da língua ao se depararem com indivíduos de diferentes culturas.

A cultura que o livro não mostra pode ser obervada em outras fontes, as quais comumente instigam discussões e também costumam ser interessantes e motivadoras, fazendo com que os aprendizes se envolvam mais com o idioma e assim tenham sucesso em aprendê-lo.

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